Terça-feira, 17 de Agosto de 2010

Agora que já está nas bancas à mais de mês e meio, e que saiu o Poema Sujo, a minha crónica da LER de Julho, escrita a partir de um convite do director.

 

José Ribamar Ferreira assina Ferreira Gullar desde sempre e eu não sei porquê. Talvez o tenha perguntado na conversa que tivemos com ele (eu, a Ana, o Eucanaã Ferraz, o Carlos Mendes Sousa e mais alguém que já esqueci) em 2002 na sua casa no Rio, mas a gravação que ele acedeu que se fizesse para sair na Apeadeiro perdeu-se no esquecimento. Ainda bem. Interessa-me mais lembrar as suas mãos muito esguias a demonstrar ou explicar ou desconstruir um poema que teria escrito há já muito anos e que parecia o jogo do galo em versos e pauzinhos chineses em que cada pauzinho, que encaixava numa ranhura numa tábua, tinha uma função poética específica. Ou se não tinha, passou a ter porque foi assim que o lembrei sempre. Os cabelos já brancos e compridos caiam sobre as mãos debruçadas no poema e eu queria perceber que a poesia também podia ser aquilo – tudo, portanto.

Mas minto. A conversa tinha outro espectador, interventivo e interessante e chamado Gatinho. Gullar tinha há anos um gato a que tinha chamado de Gatinho. A reiteração da sua qualidade substantiva no seu nome próprio não é de menor importância: Gatinho porque era gatinho quando chegou ou porque alguns anos passados escreveu um livro infantil com um título como poucos de tão bom: Um Gato Chamado Gatinho? Aposto na primeira razão, bem mais importante.

No final do livro, Gullar diz que já tinha escrito poemas sobre o seu Gatinho no livro Muitas Vozes (de 1999). Mas que esses poemas “são de outra natureza, envolvendo questões graves”. Quererá isto dizer que a sua poesia é grave? Ou que estes poemas para os moleques são leves? Imagino que sim, talvez até lhe tenha perguntado, mas o peso do poema concreto de carácter escultórico não mo deixa lembrar.

A sua poesia é grave, sim. Porque primeiro era sobre a própria poesia, sendo como foi pioneiro do neo-concretismo brasileiro. E porque depois de sentir esgotado esse trabalho, se tornou então interventiva, sobre aquilo que faz a poesia e que não são as palavras: os homens. É assim que nasce Poema Sujo. Um livro de um poema só, longo e torrencial, escrito em 1975 com a gravidade do exílio forçado pela ditadura brasileira.

O livro sobre Gatinho tem outra leveza, sim. Mas tem também estes versos: “Se à mesa me sento / a escrever poesia / e da sala me ausento / pela fantasia, volto à realidade / quando, sem querer, / toco de resvés / numa coisa macia.” Da sala se ausenta “pela fantasia”, diz. Haverá coisa mais grave e etérea do que entrar na poesia que é fantasia? E voltar pela coisa macia? E o gatinho chamado Gullar não fala do poema do círculo perfeito feito com pauzinhos agrestes: fala do gato chamado Gatinho que lhe amaciou durante anos a vida. Sei que infelizmente já morreu. Mas sei também que, para além de Gullar o ter feito neste magnífico livro, Adriana Partimpim o decidiu imortalizar cantando no seu show quatro destes poemas ditos leves. E eu não conheço nada mais grave do que fazer rir uma plateia cheia de crianças como aconteceu no Coliseu há uns cinco anos. E a poesia também pode ser isto – tudo.



publicado por JRS às 00:40 | link do post | favorito

mais sobre mim
posts recentes

O Mário

Mistress

FCF

Mira Técnica

Easter Message

PPD/PSD

It is

Canção Triste

Portugal

A Moral da Coisa

arquivos

Março 2013

Fevereiro 2013

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

blogs SAPO
subscrever feeds