Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

Razões extraordinárias fizeram com que tropeçasse na biografia, escrita por Miguel Pinheiro, de uma personalidade que nunca me despertou a mínima curiosidade - Francisco Sá Carneiro.

A culpa desta falta de interesse da minha parte estava no unanimismo que trazia o seu nome. Achava que tinha sido quase um santo, um lutador contra um regime através da Ala Liberal e uma figura sempre unânime no PSD. E, tenho a certeza, esta é a ideia que a maior parte dos portugueses que não viveram o 25 de Abril e os anos seguintes já adultos têm dele. A ideia mais errada de todas.

Primeiro é preciso dizer que a culpa disto é do próprio PSD, que o entronizou para disso retirar (quando interessava) dividendos políticos. Bastava falar no seu nome num congresso - e Santana Lopes lá arranjava maneira de o fazer sempre - para todos entrarem em transe como se tivessem visto a Virgem Maria outra vez sobre a árvore, pastorinhos que pareciam. À falta, a maior parte das vezes, de uma coluna vertebral política que unisse o PSD, ninguém melhor que uma figura morta, apresentada como unânime e lembrada como assassinada, para o unir.

Mas a leitura da biografia do Miguel Pinheiro altera tudo. Quer dizer, todos sabiam como tinha sido Sá Carneiro. Mas todos tinham feito por esquecer, como quando lembramos depois da morte dos que amamos apenas as coisas que boas que aconteceram (ou as más das que odiamos). Francisco Sá Carneiro era uma pessoa instável, repentista, brilhante mas ao mesmo tempo completamente avessa a compromissos. Como pode um individualista ferrenho virar cala congressos de um partido de governo? Com a ajuda de uma morte trágica e a transferência da alma directamente para um outro político - Pedro Santana Lopes - que assim resolveu a sua instabilidade inventando a estabilidade daquele que lhe deu a alma.

Não nego, pela leitura da biografia, que Santana Lopes tenha sido um dilecto discípulo deste mestre (foi tanto que o seu percurso errático é a melhor homenagem que pode fazer à personalidade de Sá Carneiro - em alguns pontos tão parecida). Mas há um episódio que demonstra bem a mentira que o PSD nos tem oferecido: o nome.

É de todos sabido que Santana Lopes fala no PSD como o PPD/PSD. Quando o faz, imaginamos imediatamente que a transfusão é directa de Sá Carneiro. Nada mais errado. Como nos diz Miguel Pinheiro, Sá Carneiro só criou o PPD em vez do PSD porque nos cinquenta e tal partidos políticos registados nas semanas seguintes ao 25 de Abril, já alguém tinha criado o Partido Cristão Social-Democrata. Foi o escritor Ruben A. que lá ofereceu o mal menor: Partido Popular Democrático.

Passa para PPD/PSD por uma razão ainda mais interessante: o grupo dos dissidentes de Aveiro tinha formado um MSD (Movimento Social Democrata) que se poderia transformar em PSD. Se a isto somarmos o facto de Sá Carneiro ter de andar sempre a explicar pela Europa fora que o PPD era social-democrata e não popular (como são os partidos de direita europeus), achou por bem, em 1976, num Conselho Nacional alterar de PPD para, numa primeira fase e por causa das eleições que seriam próximas, PPD/PSD. O episódio desta passagem é hilariante e deve ser lido nas páginas 476 e 477. Vai desde a mesa do Conselho Nacional começar por não ouvir um protesto até à, suposta, invenção de alguns conselheiros que são contados como abstenções para que estivesse quórum na sala.

Isto é: Sá Carneiro nunca quis ser líder do PPD nem sequer do PPD/PSD. Sempre quis ser líder do PSD. E nós, vencidos não do catolicismo, como diz Ruy Belo, mas da revolução, andamos estes anos todos a pensar que o homem viu alterada a designação do partido depois da sua morte.

É um exemplo, apenas. De tantos os que nos espantam pela surpresa de vermos alterada toda a percepção pública de um homem. 

Quanto à biografia: eu sei, anda toda a gente (ou pelo menos li algures) a professorar que isto de dizer que se lê como um romance um livro de não ficção é um disparate. Não concordo. Até porque este lê-se melhor do que um romance. (O início e a primeira parte do epílogo são de antologia.)



publicado por JRS às 20:22 | link do post | favorito

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