Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

Gostei muito da atitude francesa, que fui acompanhando à distância. Acho que o nojo é tanto, que me pareceu prudente não chegar perto e querer saber mais. Não escrevo num jornal, não sou opinion maker - tenho um blogue. Posso, por isso, e de vez em quando, dar-me ao luxo da distância, acho. Claro que neste caso a distância é motivada por dois tipos de nojos: o intelectual e o carnal. Nojo pela atitude, fascista como normalmente se entende em Portugal o termo (mais uma generalização); nojo pelo cheiro dos ciganos, claro. Ou não é assim que tudo começa, com generalizações? Daqui a pouco voltamos ao tempo da raças humanas, coisa linda e muito a tempo de ser lembrada.

E acreditem que sei do que falo, que vivi 17 anos a 300 metros de um acampamento perpétuo. Infelizmente, as condições sanitárias nunca foram as melhores, concedo. E os ciganos eram ciganos como normalmente pensamos neles: ford transit com um bm de há vinte anos, lado a lado; calças rasgadas com um cinto à Chuck Norris; cabelos com gel e caídos sobre os ombros, claro. Tenho 33 anos: vão mudar-se para uma habitação social (mal desenhada, diga-se) que a Câmara construiu, num terreno abandonado que esteve abandonado desde sempre, ali a 200 metros. Mas importante dizer que em 17 anos de vizinhança, o mais que sabia era se abriam ou não a porta naquele ano à cruz, pela Páscoa. Problemas? Nenhuns. Convivência? A necessária pela distância, curta. Mas seria isso, porque nós somos portugueses, pelos vistos, e eles que lá estavam já antes de eu nascer, são de ascendência romena, motivo para deportação? Segundo Sarkozy, sim. É o cheiro que a isso obriga: a França tem de cheirar a rosas, como seria de esperar.

Não, senhores, não. Os ciganos não cheiram mal. Nós é que cheiramos mal da cabeça quando fazemos generalizações obtusas, quando não percebemos que é gente, que somos nós ali - só nos falta o cinto, que as calças, os carros e o gel (com cabelo pelos ombros) também os usámos.

Livre circulação de pessoas, diz a União Europeia. Sarkozy fez bem: é enviá-los com um círculo de notas de 300 euros por cabeça (100 por criança, para dizer que não explora também os mais novos) para a Roménia. Livre circulação? Só se for a do Danúbio. Porque a ideia de Europa foi devidamente enterrada quando se retirou da equação "pessoas". Melhor, como afinal parecia o propósito da CEE - Comunidade Económica (notem) Europeia - no início, ser só livre circulação de bens. Então se forem daqueles que se transacionam só virtualmente, tanto melhor. As pessoas que se deixem ficar cada um no seu país, que os franceses só quiseram saber da Europa quando a Europa lhes entrou pelo país adentro (1939, para os esquecidos).

É mandá-los foder. Aos franceses? Não, que eles não têm assim tanta culpa: aos políticos que resolveram terminar com um sonho que nunca pareceu possível. E, escritor, cabe-me dizer que a língua tem muito a ver com isso - é essa a maior coisa que diferencia os Estados Unidos da América destes Estados Unidos da Europa. Que já eram.



publicado por JRS às 02:16 | link do post | favorito

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