Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Carlos Queiroz foi uma das pessoas que mais fez pelo futebol português. Se Scolari (roubando, em 2004, se bem se lembram, o trabalho de Mourinho) conseguiu com mérito posterior colocar uma selecção de um país periférico na alta roda do futebol mundial, deve-o também àquele que começou um trabalho de formiguinha com os "miúdos", primeiro de 89, depois de 91. Não nos esqueçamos que o feito de sermos bi-campeões mundiais de juniores (ou sub-20, oficialmente) foi festejado como se tivessemos ganho o Euro 2004 - 120 000 almas em 1991 na Luz; até rapazes de 12 anos, em 89, pararam as aulas para ir para a sala onde estava a tv na escola ver a final onde um Abel colocou na gaveta um golão.

Atente-se a como, depois da passagem frustrante de Queiroz pelos AA's no apuramento, falhado, para o Mundial de 1994, não mais se ouviu falar de selecções jovens em Portugal. Foi como se tivessem desaparecido, como se só tivessemos sido campeões quando houve torneios e eles se tivessem esfumado entretanto. Isto diz muito da importância de Queiroz nesse trabalho - ele saiu, foram com ele as selecções jovens.

Julgo ser também claro que o próprio Queiroz é, em si mesmo, um erro de auto-casting - alguém que quer ser aquilo que manifestamente não é. Ele é um fantástico adjunto no Manchester (que é o mesmo que dizer que planeia, treina, dirige tudo mas não decide quem entra e sai durante o jogo nem é o responsável pela motivação do grupo), ele é um fantástico director geral de uma - ainda sonhada - Casa das Selecções para o futebol português. Mas ele não é - nem nunca vai ser, por muito que lhe cust(ass)e ler isto - um fantástico treinador de campo. Razoável - concedo. Fantástico - nem pensar.

Ele é um treinador de escritório, já o disse uma vez. E por isso errou tanto na substituição do Hugo Almeida. Tinha-a planeado de véspera - nisso ele é bom, a planear - mas não percebeu o que o jogo pedia. É como se fosse o Domingos, mas ao contrário: outro que planeia mas que, ao contrário de Queiroz, sabe muito, mas mesmo muito bem o que o jogo pede. (Domingos parece-me ser neste momento o melhor treinador de campo português.)

Dito isto, cabe-me dizer o seguinte: o que lhe estão a fazer é injusto, pusilânime, indecoroso, cobarde e, para usar a linguagem do futebol, filho da puta. Não o acho pelas razões que esse iluminado chamado Rui Santos acha: porque afinal ele até usou uma linguagem normal, diz (queria ver se fossem outros, se não vinha já fazer sondagens de como deveriam ser fuzilados - no Campo Pequeno ou na Aula Magna). Acho-o porque notoriamente é um processo dirigido, com o intuito de o despedir com justa causa para poupar uns trocos. E mesmos que esses trocos sejam milhões. Ele usou de linguagem que não devia - concedo. Mas esperar pelo resultado do Mundial, onde "atingiu os objectivos propostos" (e até ganhou com isso um prémio de 700 000 euros), para intentarem uma acção deste tipo é muito triste. Querem despedi-lo? Façam-no. É só pagar os ordenados até final do contrato. Ou então chegassem a acordo com ele. Mas nem ele, nem Portugal - que vai passar por este andar metade da qualificação sem treinador - mereciam este tratamento.

Tenho pena que ele queira ser o que não é. Eu queria muito que Queiroz fosse a pessoa que dirigisse todas as selecções portuguesas, desde os infantis, aos AA's. Mas também queria um treinador que fosse de campo e não de escritório. Coisa impossível, infelizmente. Caros: fiquemos todos contentes e felizes com os meninos bi-campeões, com os semi-finalistas AA's, com o quase de 2004. Agora, com ou sem CR7, só quando Mourinho pegar nisto é que a coisa indireita - nas minhas previsões, depois do Mundial de 2014, quando já tiver ganho tudo com o Real e for descansar um ano para um clube Usbeque qualquer, enquanto vai planeando as selecções nacionais (que o Mourinho não vai querer só ganhar com os AA's, quando entrar vai querer mandar em tudo e ganhar com tudo e mais alguma coisa).



publicado por JRS às 23:35 | link do post | favorito

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