Domingo, 13 de Março de 2011

Não fui à Avenida da Liberdade. E não fui porque a culpa não é deles. Porque eles, como bem dizem o João Pereira Coutinho e o Nuno Costa Santos aqui, não existem. Eles são sempre eles até que um ele entra para o círculo. E deste nunca fazem parte os mais próximos. Basta percebermos a exponenciação e o eles somos nós.

E não fui porque não acho que a geração a que pertenço esteja à rasca. O Henrique Raposo, de que aqui já dei conta, diz bem no Expresso desta semana. Acho que esta geração tem é de se desenrascar, o que é muito, mas mesmo muito diferente. Tentarei explicar.

No parlamento há cinco forças políticas. Dessas, só três são parte da solução - PS, PSD e CDS. As outras duas são parte do problema - PCP e BE (o PEV para mim não conta). Isto porque não se comprometem nem cedem em nada. E, meus caros, para se chegar a qualquer lado numa negociação é preciso mais do que impôr um modelo. Se o eleitorado só lhes dá 20% de votos é porque há 80% que com eles não concordam. E é estúpido - esta é a palavra - não haver qualquer tipo de negociação com os restantes 80 para resolver o problema. Assim, não solucionam - apenas esperam que, miraculosamente, os restantes 80% percebam que sempre estiveram errados e aumentem a sua votação para, quem sabe um dia, poderem então impor pela sua maioria eleitoral a solução que preconizam.

Digo isto porque na Avenida da Liberdade vi muito voluntarismo mas nenhum comprometimento. Como aquela história da prato de bacon com ovos: sim, a galinha contribuiu - mas o porco comprometeu-se. E na Avenida pareceu-me tudo muito tratem de nós que nós precisamos. Não, não precisam. E não, o tempo não volta para trás.

Primeiro a segunda frase: o tempo não volta para trás. Como bem diz o Alberto Gonçalves (ou o email que lhe enviaram e que ele teve a inteligência de citar) na crónica de hoje no DN, o tempo do trabalho dito não precário ou seguro (o que quer que isto queira dizer), acabou. Já foi altura em que alguém saía da faculdade e tinha emprego garantido na área onde estudou. Já foi altura em que uma pessoa ingressava numa fábrica e sabia que tudo ia correr bem até à reforma. E, pasme-se, por uma razão simples: porque a democracia e o acesso à educação chegou a Portugal há quase quarenta anos. Foi esta democracia que acabou com as corporações e as empresas do regime e fez com que A Boa Reguladora tivesse que começar a competir com o estrangeiro. Assim, teve de se adaptar ao mercado e, ironia das ironias, dispensar o pessoal que lá trabalhava. Porque já não tinha um regime que assegurava que o senhor António Augusto continuava a ser um empresário de sucesso e a possibilitar que meia cidade de Famalicão vivesse à custa da sua fábrica. Por outro lado, a educação para todos fez com que todos quisessem ser doutores e aquilo que era o sector primário e até secundário fossem completamente destruídos. Vivemos num país onde ser agricultor ou pescador ou empregado fabril ou afim era profissão para pessoas de segunda. Nunca permitiria um pai que investiu na educação do seu filho ou um filho que estudou investido dessa permissa parental trabalhar na pesca, na agricultura ou na indústria. Mesmo que ser agricultor já não seja só a enxada ou ser pescador só a rede.

Por isso, não há como. O tempo já não volta para trás. E se somos hoje um país desenvolvido, temos de nos ajustar a esta mudança de paradigma. A dita precaridade veio para ficar. E o recibo verde e o contrato a prazo é um exemplo acabado do futuro. Sim, há situações a melhorar no que diz respeito a alguns desses aspectos. Seja nos descontos para a segurança social, seja no IRS, seja no que for e que outros saberão bem melhor do que eu. Mas fico mais preocupado com a questão de diminuirem a indemnização por despedimento legal e a impossibilidade de se ter acesso a algum subsídio de desemprego antes de 450 dias de trabalho como contratado ou de os recibos verdes não contarem como trabalho passível de acesso a esse subsídio, do que a questão de entrar para a empresa ao fim de três contratos ou afins. Eu trocava de bom grado a entrada numa empresa por alguma segurança enquanto procuro outro emprego. É que depois de entrar estamos seguros, não estamos? Mas a empresa não. A empresa está pior, porque com mais responsabilidades e só se o, dito, trabalhador (eufemismo interessante) matar o, dito, empregador (notem as palavras) é que se pode libertar do primeiro. E é isso que traz precaridade - não haver flexibilidade laboral porque as pessoas ainda acham que vai ser trabalho para a vida e que podem esticar-se ao comprido quando entram para os quadros de uma empresa. Lembro, para reflexão, o exemplo os bolseiros de ciência em Portugal, que não passam recibo verde nem têm contrato a prazo. Não seria melhor para todos eles passarem recibo verde? É que podem estar com bolsas pós-doc até aos cinquenta anos e nunca tiveram uma declaração de IRS que lhes possibilite qualquer crédito.

O tempo não volta para trás e somos nós todos que nos temos de ajustar. Aqui entra o comprometimento, e a dois níveis. O primeiro, pessoal; o segundo, social. Comprometo-me pessoalmente em arranjar para a minha família as melhores condições possíveis de vida dentro de todas as áreas em que possa ser útil a ela. Escrevendo, editando, lendo, fazendo ginástica ritmica ou indo trabalhar como calceteiro. Comprometo-me pessoalmente a trabalhar. Seja aqui, ali ou acolá. Comprometo-me a tentar. Comprometo-me a não desistir. Comprometo-me a tentar ser competente na área que escolhi. E se nessa área não der - a ser competente na área em que não escolhi. A ser buliçoso -  a bulir. Comprometo-me a morrer, mas a morrer a tentar. A dar ao meu filho as melhor condições possíveis e engolir os sapos que tiver de engolir, mesmo que minha merda saia verde um dia. Porque trabalho é trabalho e conhaque é conhaque. Bom é, bom era, que se juntassem os dois. Já houve alturas em que foi um par perfeito. Hoje, a espaços, é um par perfeito e disse dou graças ao Deus em que não acredito. Mas labuto. E não me queixo de estar à rasca. Não. Desenrasco-me.

O segundo comprometimento é social. São precisas, se a internet não me engana, 5 000 assinaturas para criar um partido em Portugal. Se os três jovens que se dizem à rasca querem comprometer-se, criem-no. Estiveram 300 000 pessoas em manifestação. Desenrasquem-se. Mudem por dentro. Não há-de ser difícil. Ou melhor, até é. Isto porque nem todos são inteligentes em todas as áreas.  E isso de criar partidos e trabalhar nesse comprometimento obriga a uma certa dose de qualidades em algumas áreas que, talvez, nenhum dos três tenham. Mas desses 300 000 há-de haver quem saiba finanças, quem seja sociólogo, quem saiba economia, quem pense, quem pense, quem pense e ainda mais quem pense. Agora, sejam comprometidos com o país não contra a precaridade mas a favor do trabalho. Não contra eles, mas sendo eles. Não sendo parte do problema (como os 20% em cima) mas negociando para ser parte da solução. A democracia é cedência, não é imposição.

Numa frase: não estejam à rasca - desenrasquem-se.



publicado por JRS às 23:51 | link do post | favorito

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