Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Agora que a Blitz deste mês já saiu, fica o texto sobre Leonard Cohen que teve a honra de figurar no Retrovisor do mês passado. 

 

Ele está no meio de nós

Deus existe. Mesmo que o princípio de Occam’s Razor – que nos diz que a explicação mais simples tende a ser a mais correcta (“a pluralidade não deve ser usada sem necessidade”) – tenha de estar errado nesta matéria. Eu sei: é mais simples dizermos que Deus não existe e que é uma construção da mente humana do que dizer que Ele anda no meio de nós, sem provas que não sejam muito subjectivas ou baseadas num livro escrito há quase dois mil anos, livro esse acerca de um homem que alegadamente fez uns milagres, depois foi crucificado e ressuscitado pelo seu Pai.

E Deus existe, mesmo ao arrepio da leitura do magnífico livro A Desilusão de Deus (God’s Delusion, no original) do reconhecido e admirado cientista Richard Dawkins. Com o livro de Dawkins todas as dúvidas são dissipadas: quem era crente torna-se agnóstico, quem era agnóstico fica finalmente ateu. E isto mesmo aconteceu comigo. Agnóstico desde que comecei a pensar um bocadinho no assunto (depois da minha primeira namorada me ter dito “o problema não és tu, sou eu” e eu perceber que Deus deveria ter intercedido para com um milagre tratar do problema que pelos vistos era dela), tornei-me ateu desde que li essa bíblia dos tempos modernos e que, com argumentos inabaláveis, desconstrói a outra bíblia dizendo, “o problema és tu, não sou eu”.

Então, a pergunta impõe-se: se sou ateu, porque raio começo esta reflexão acerca da divindade com a frase “Deus existe”? Porque não há argumentos científicos que ganhem às experiências pessoais e às reflexões por elas motivadas.

Um dia houve em que vi Deus. Foi há uns anos, no Sá da Bandeira e no concerto dos Sigur Rós. Foi logo na primeira música, quando Jónsi cantava Vaka – a primeira música do álbum ( ). A certa altura há uma passagem de grau, como aquela que aconteceu dos antepassados dos chimpanzés para os dos humanos, e a música torna-se um pungente grito e exclamação. E foi aí, nessa altura, que Jónsi teve Deus a iluminar-lhe a face, numa luz vermelha e tão bela. Claro, os meus amigos disseram logo que era só a luz, mas eu queria acreditar em Deus. Acreditei em surdina interior até há dias. Agora posso confirmar que era mesmo Deus porque percebi que é na música que o encontramos sempre.

Existem três tipos de actuações musicais. A primeira, mais indexada à chamada música clássica, diz respeito ao concerto. Nesta categoria, os músicos costumam estar munidos por pautas e, na maior parte das vezes, tocam melhor ou quase tão bem do que o fazem na gravação do álbum. Até porque, também na maior parte das vezes, o álbum é uma gravação ao vivo feita em estúdio. Não há lugar ao improviso nem a falhas. A única coisa que a liga à próxima categoria é o maestro poder ser venezuelano e ter um cabelo mais parecido do que devia com o do vocalista dos Extreme.

A segunda categoria diz respeito ao espectáculo. Aqui se incluem praticamente todas as outras actuações ao vivo. Desde o stage diving de Mike Patton, vestido como se tivesse saído do Tudo Bons Rapazes do Scorcese, até aos saltos – agora já mais comedidos, claro – do Eddie Vedder, passando pelos “faz de conta que me estou a cortar” do Marilyn Manson (embora as garrafas de água bem cheias passassem rasantes ao técnico da munição…), pelos Kings of Convenience a chamar toda a gente para cima do palco ou pelo Rufus Wainwright a, em actuações diferentes, é certo, usar um vestido de noiva preto, fazer um karaoke onde obrigava o guitarrista de sessenta anos a vestir smoking e a dançar como se estivesse no West Side Story, cantar a última música do álbum Want Two,  Old Whore’s Diet vestido à fada madrinha ou, por fim, passar metade do tempo a contar histórias da vida dele. Isto é espectáculo. As músicas quase que em segundo plano, a sua qualidade de execução sempre muito mais baixa do que a gravação por pistas num estúdio, mas a beleza de percebermos que são experiências por isso mesmo únicas.

A terceira é a que verdadeiramente interessa para o argumento deste texto: a missa. Claro que desde há muitos anos que há músicos ou bandas que fazem dos seus espectáculos cerimónias quase religiosas (os Doors para os mais crescidos ou o Festival Panda para o meu filho), mas só há um músico que usa um missal e que, em tudo, se apresenta fazendo do seu, digamos, espectáculo (ou concerto, dada a ausência de um único erro), uma verdadeira missa. Esse homem chama-se Leonard Cohen.

A personagem traz logo com ela uma história que impõe tanto respeito como aquele que podemos (e devemos?) ter por quem caminhava por cima das águas, transformava água em vinho, ressuscitava pessoas de nome Lázaro ou via os pés lavados pela Madalena. Cohen tem naquele metro e meio de gente (pelos vistos talvez um e sessenta e tal) um passado e uma falta de coerência que nos faz pensar que todos devíamos admirar e seguir o seu exemplo. Começou poeta, movendo-se nos círculos literários da Montreal onde nasceu como se fosse mudar o mundo pela Palavra. Escreveu romances. Viveu muitos romances. Foi para Nova Iorque onde, no Chelsea Hotel, se perdeu nos meandros do hedonismo. Como pecador, absolveu-se e seguiu em linha directa para os ensinamentos do seu mestre zen, Roshi. Viveu num mosteiro budista durante alguns meses, a norte de Los Angeles mas bem no pico do Inverno, onde a neve queimava os pés de americanos (calçados com apenas com umas insuficientes sandálias) seguidores de um japonês e um alemão (“a vingança pela segunda grande guerra”, disse ele a certa altura). Foi-se embora. Mas voltou. E – certamente já no Verão – tornou-se monge. Com um pé-de-meia considerável, tanto motivado pelos seus concertos, como pelos seus álbuns, mas também e muito pelas versões que quase diariamente aparecem pelos mais estranhos executantes de músicas suas (sendo que Hallelujah é o maior exemplo – embora, tenha de ser dito, depois da de Jeff Buckley mais valem os restantes cançonetistas estarem quietinhos), pensou que com quase setenta anos tinha a reforma que merecia mas, mais do que isso, a vida dos seus familiares salvaguardada para o futuro. Poderia assim, dedicar-se à vida asceta que tinha escolhido.

Mas, como aquele que foi traído por trinta dinheiros, Cohen foi traído por alguns milhões de dólares. A sua manager e – claro está – em tempos fugaz interesse amoroso, tinha através de coisas tão complicadas como holdings, investimentos à Madoff ou afins, delapidado o seu pé-de-meia deixando-o com uns míseros 30 mil contos. Ele ainda pensou que com esse valor se governaria até ao final da vida. Mas, pelos vistos, as dívidas ao fisco já eram maiores do que isso. Hipotecou a casa, entregou ao processo aos advogados e fez-se à vida – ou, neste caso, literalmente à estrada.

Assim, com setenta e poucos anos iniciou uma digressão que já passou por Portugal três vezes e permitiu a edição de dois dvds e dois cds: Live at London e Songs From the Road. E é aqui, neste espectacular concerto, que nós vamos à missa.

Cohen entra em palco vestido de fato, coisa que não é surpreendente tendo em conta que o seu pai fazia fatos e ele nunca se conseguiu sentir bem de jeans. Fato e cartola. O palco tem os instrumentos colocados em cima de tapetes persas. Os músicos usam também a sua cartola. Os roadies usam cartola. As três lindíssimas meninas (Sharon Robinson e as Webb Sisters) parecem de tailleur como se estivessem ali para ajudar à missa (e estão). Mas isto é só o começo, aquilo com que se irá seguir a cerimónia.

Na primeira música, Cohen ajoelha-se à primeira fala. Fá-lo-á incontáveis vezes num gesto natural e aceite como evidente por quem vê. Depois segue todas as rotinas, como se lesse o seu missal: entre as músicas, as mesmas palavras em todos os concertos, o mesmo sorriso, a mesma conversa com o público. A certa altura fala de si, dos momentos mais complicados que passou durante a sua vida, dizendo de como, mesmo tendo estudado muita religião e filosofia, a felicidade continua a aparecer. Sem hedonismos, note-se. É uma felicidade ascética, verdadeira porque da alma. Noutra, e enquanto as meninas continuam o coro de Tower of Song, diz que percebeu qual o significado de tudo, que tem a resposta para a maior pergunta de todas. E que a dirá: tam tirám tirám tam tam. Depois há os solos de cada um dos músicos em que tira o chapéu, virando-se para eles e, no final, fazendo a devida vénia como se tivesse de agradecer aos sacerdotes que o acompanham. Quando inicia If it be your will e permite que as Webb Sisters a cantem, ele não sai do palco: antes fica de cartola colada ao peito a cantar, entre dentes, cada uma das falas. Quando canta Hallelujah ou quando canta I’m Your Man, The Future ou Everybody Knows, ele não muda em nada o discurso corporal, a prece, o ajoelhar. Cada música é um pedaço da voz de Deus que – mesmo parecendo (e só parecendo) poder não estar de encontro com a filosofia mais ascética – aí se enquadra na perfeição. E como também na nossa tradição judaico-cristã, onde a certa altura há o ofertório, Cohen cede ao público e oferece So Long, Marianne, tão datada nos anos 70 que parece que estamos por momentos a ouvir Demis Roussos. No final, entre saídas e entradas quase a caminhar sobre o ar, saltitando e dizendo que até aos 76 anos é possível ser mais do que um velho a debitar poemas, aparece finalmente na tela a Cruz: é um símbolo que junta os dois corações, parecendo a Estrela de David sem esquinas (Cohen é de ascendência judaica; para conhecer o símbolo basta ver o álbum Dear Heather, a edição portuguesa do Book of LongingLivro do Desejo – ou a nova e lindíssima edição americana do Book of Mercy). É este símbolo que nos informa: aqui está e foi a Palavra revelada.

Quando ia à missa com a minha avó, contava os quarenta e cinco minutos de duração quase em surdina, a ver se acabava rapidamente. Esta, de Leonard Cohen, tem três horas e parece que dura um fugaz momento.

Eu sei porquê. Porque, apesar de Dawkins, Deus existe e nós não podemos ver o Messias mais do que o permitido. E três horas, para um comum mortal, já valem para uma vida inteira. Sincerely, L. Cohen.  



publicado por JRS às 23:32 | link do post | favorito

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