Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

Sendo, como sou, um quase-(faltam-cinco-semestrais)-biólogo fiz ainda uma parte considerável do curso. Mas mais importante: fiz as cadeiras que me fazem escrever este texto devidamente encartado. Zoofilogenia e Evolução com 17 valores (onde se estudam entre outras coisas as razões para a extinção das espécies); Ecologia e Conservação do Meio Ambiente com 15; Ecologia com 10. Que quer isto dizer? Que sou cinquenta por cento mais entendido na conservação do meio ambiente do que na ecologia, é certo. Mas que sou quase vinte por cento melhor em extinguir espécies do que em conservá-las.

É por estas e por outras coisas que acho sempre um piadão quando me falam, cito, da ameijôa-zebra, da ameijôa-quagga, dos vermes da raiz do milho ocidental ou de peixes cabeça-de-cobra. Razão para achar piada: todos eles são citados no prólogo do livro Fragmento, editado há meses pela Porto Editora. Ainda não li mais. O livro deve ser bom, acredito, pelo menos a história parece bem interessante. Não estou à espera de ler Lobo Antunes, antes um contador inócuo de histórias, o que também faz bem às vezes. Mas esse prólogo é mesmo muito muito interessante.

Cito: "No início da década de 1990, vermes da raiz do milho ocidental apanharam boleia num avião a jacto e aterraram na Jugoslávia dilacerada pela guerra." Agora notem: "Enquanto os seres humanos estavam preocupados com a sua efémera e sangrenta guerra, os vermes da raiz lançavam o seu próprio ataque permanente." Pelos vistos uma fêmea fecundada lixou as colheitas da Europa para muitos anos porque entrou sem tirar os sapatos e o cinto no avião. Mas não é isso que me detém nesta citação.

O prólogo é um desfiar de tragédias sobre aquilo a que se chama (termo técnico) espécies invasoras. Aquelas que, por alguma razão - neste prólogo praticamente sempre por causa do Homem (tirando o exemplo do tigre dentes-de-sabre que, maroto, há uns cinco milhões de anos se aproveitou de um istmo que parecia guiado pela vontade para se ter criado, e com a sua migração matar as aves não voadoras da América do Sul) - invadem um ecossistema que estaria em, dizem, equilíbrio e dizimam as espécies que não estavam preparadas para a sua chegada, quer por substituição do seu nicho biológico, quer por parasitação ou predação. O tigre é um bom exemplo.

O que aqui é preocupante é que esta retórica pensa duas coisas completamente ridículas: 1) que as espécies estão perfeitamente adaptadas e o tigre não tinha nada que estragar a adaptação (isto num plano dito "natural") 2) que o Homem, então esse, é que não tem nada que andar para aí a viver e alterar ecossistemas e extinguir espécies - o homem não pertence sequer ao mundo "natural".

O primeiro erro é biológico: as espécies nunca estão adaptadas ao seu meio ambiente, estão sempre em processo de adaptação através daquilo que Darwin chamou selecção natural. Este termo pode ser equívoco: não é selecção natural - é elimininação natural. Os que são eliminados não se reproduzem e os sobrantes - que em vez de serem seleccionados por serem os devidamente adaptados são os, às vezes, um só bocadinho melhor adaptados do que os outros - é que se safam. Ora, naturalmente - notem - naturalmente, o tigre estava mais preparado para aquele ecossistema que as aves não voadoras que não tinham evoluído em confronto com essa presa. E, naturalmente, dizimou-as. Que aconteceu a seguir? A população de tigres pode ter-se extinguido também ou pode ter equilibrado a sua existência naquele novo ecossistema com as presas que se aguentaram. E isto, meus caros, é natural. Colocar este exemplo neste prólogo denota um enviasamente brutal do que é a evolução biológica: 99% das espécies que existiram desde sempre na Terra já se extinguiram. O que existe é 1% (ou menos, acho). O peixe cabeça-de-cobra é só mais uma espécie de peixe numa longa linhagem de espécies de peixes, não é aquela.

Mas passemos ao segundo ponto: o Homem. Claro que depois do exemplo do tigre até parece certo dizer que o Homem faz tudo mal. Mas não faz. O Homem é um animal. Que como o tigre - e por causa de uma coisa chamada inteligência que permitiu a tecnologia e que evoluiu por selecção natural naturalmente (insisto - naturalmente) - encontrou não num ecossistema como um lago (no casos das ameijôas) ou a América do Sul (no do tigre), mas digamos, num ecossistema global, maneira de se multiplicar. E só parará quando acontecerem uma de duas coisas, ambas naturais: ou terminarem os seus recursos ou se auto-aniquilar (sendo que esta segunda parte também pode ser considerada natural já que advém da disputa de recursos - seja território, água, etc, com ou sem a religião encapotada). E os recursos são as nossas aves não trepadoras que não estavam à espera de um tigre com estes dentes. Naturalmente.

Quanto ao facto que verdadeiramente me fez escrever este relambório - o Homem como elemento disruptivo pela sua acção nos ecossistemas do mar negro ou nas colheitas da Europa - é determinante perceber que (e vão ver o bold acima por favor na citação) a nossa guerra não tem de ser efémera em contraponto com o ataque permamente do verme. A nossa guerra é tão natural - porque humana - como o ataque completamente efémero e natural do verme: quando os jugoslavos se organizaram acabou a guerra; quando o verme for parado e extinguido ou acabar por destruir todas as colheitas, auto-extinguindo-se ou entrando (se não destruir todas todas) em equilíbrio com o seu meio ambiente, acaba a praga.

O que quero aqui de uma maneira tão politicamente incorrecta dizer é que não acho que haja qualquer problema com o facto do senhor Eugene Schiffelin, em 1890 e porque achava que todos os animais citados por Shakespeare deveriam exisitir no Novo Mundo, ter soltado 30 casais de estorninhos no Central Park e agora existirem 200 milhões de estorninhos na América, certamente tirando lugar ao correspondente pássaro  que ocupava o mesmo nicho biológico. Como o istmo que no prólogo é quase visto como uma coisa diabólica - e foi tão natural - como o cometa que no Cretácico caiu no local onde é agora o Golfo do México e acabou com os dinossauros e uma percentagem bem grande de outras espécies - desde árvores a aves ou insectos - que existiam na altura, ou como a razão (não se tem a certeza qual seja) que acabou com, notem, 95% das espécies existentes há 225 milhões de anos (a chamada extinção do Pérmico), o Homem é um ser natural. E vai extinguir - já o está a fazer - muitas das espécies existentes (seja directamente, seja dando boleia a vermes nos seus jactos ou a ratazanas nos porões das caravelas). E depois? Vai deixar de existir o panda ou o koala? Que pena, parecem tão fofinhos. Vai deixar de existir a barata (não vai que ela aguenta tudo, mas aceitem o argumento)? Temos pena ou essa até extinguiríamos nós de boa vontade? É que quem quer conservar deve ser tipo Noé: ou são todos ou então está a armar-se em Deus. E Deus, meus amigos, só (não) há um. E o Homem é só um animal.

Em resumo, que isto já parece uma tese de doutoramento: se o panda acabar, teremos sempre o canal Panda onde ver os Irmãos Koala.

PS: A única chatice nas extinções e na diminuição da biodiversidade é que aceleram o processo da própria extinção (ou pelo menos da chamada "diminuição de efectivos") do Homem. Não sou contra a conservação do meio ambiente, mas não a coloco à frente do conforto que a tecnologia permite aos elementos desta espécie que se diz Homo sapiens sapiens. Será possível a quadratura do círculo? Espero - embora não acredite - que sim. (Fiz, mas deve ter sido com um 6, a cadeira onde se estudava nomenclatura: o termo específico e sub-específico são em maiúscula ou minúscula? Tenho preguiça em abrir o Hickman e procurar. Agora vou comer um pedaço de porco a que se chamam e tão bem rojões.)



publicado por JRS às 21:37 | link do post | favorito

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