Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Antes de ontem, por razões circunstanciais, foi a primeira vez desde que me conheço em que não acompanhei a "noite eleitoral". Por razões bem mais essenciais, foi a primeira vez que não votei. Uma delas é simples: não tinha em quem votar e não estive para ir votar em branco ou, como espero que o meu avô tenha feito, depois de uma conversa sobre o voto nulo, colar um autocolante do Faísca McQueen no boletim.

Mas também gostaria de ser politólogo e imagino que as trintas simpatiquíssimas e adoráveis pessoas que me visitam diariamente estejam à espera da minha sagaz opinião desde que as televisões anunciaram as primeiras projecções.

E ela é:

- Aníbal Cavaco Silva não fez nada. Ou se fez, ninguém tem nada com isso. É mais do que normal que não se pague a Sisa por esquecimento; é mais do que normal que se comprem acções a preço de saldo porque um amigo nos fez o jeito e nós achámos na altura que isso acabava por não chatear ninguém. Quer dizer: é mais que normal se não formos políticos. E Cavaco Silva diz que não é nem nunca foi político. Dito isto: quem somos nós para pôr em causa um jeito tão portuguê que um amigo lhe fez? Sim, poderíamos pôr isso em causa - como aconteceu com Sócrates e o inglês técnico ou o Freeport - se ele fosse político. Mas Cavaco, como se viu ontem, é tudo menos político. Um político saberia que, em democracia, às "insinuações", aos "ataque" e às "calúnias" se responde com documentos, explicações, verdade. E que depois das eleições, ainda para mais quando se ganha, isso já passou. Sim, como bem disse João Marcelino, era bom que se visse quem andou a "orquestrar" o que quer que fosse. Como o DN viu quem "orquestrou" (Fernando Lima) o caso das escutas de há uns meses. Ficou-lhe muito mal, a Cavaco Silva, aquele discurso ressabiado, vingativo e dorido. A ética não se diz, pratica-se. E se ele acha que a praticou, só tem de o demonstrar. 

- Manuel Alegre foi tudo menos inteligente no que diz respeito ao seu percurso nos últimos cinco anos. Aquilo que ele conseguiu em 2006 foi o voto de protesto de muitos dos portugueses (não o meu, que votei Soares). Desde a esquerda caviar até à direita marialva passando pelo centrão sardinha em lata ou iPod. O facto de, como é de conhecimento público, ele ter pouca paciência para reuniões, fez com que o Movimento Intervenção e Cidadadina, que tolerou que criassem, se esvaziasse sem a sua presença. Terá pensado que a melhor maneira de conseguir o que sempre quis desde 2006 com o mínimo esforço e ou as mínimas reuniões - a Presidência da República – seria "unir a esquerda". Ensaiou uma aproximação a Soares (basta ler a badana do livro que editou nas Edições Nelson de Matos), andou aos beijos com o PS e aos abraços com o Bloco. Soares - Alegre devia saber isso bem melhor do que todos - nunca esquece. E a vingança serviu-se fria e Nobre. Andar com dois namorados, ainda para mais quando um só gosta de sardinha em lata e o outro de caviar, não podia dar em coisa boa. Não deu. O candidato contra o sistema foi o candidato do sistema passado cinco anos. A desilusão foi tão grande quanta a felicidade de Sócrates que sabia que, se ele fosse para Belém, teria um problema gravíssimo em mãos. Cavaco, o institucionalista que só fará o governo cair se antes cair um meteorito daqueles que mataram os dinossauros em pleno Rossio; Alegre, o voluntarioso que chegou a dizer que o governo caía se se privatizasse a água.

- Fernando Nobre mostrou a Soares que se enganou. Duas vezes. Primeiro quando patrocinou em privado a sua candidatura. Depois quando não a patrocinou em público. A primeira porque Nobre 2011 é um Alegre 2006 mas em mau (eu sei, é difícil de imaginar...). Não tem qualquer tipo de experiência política e muita humanitária. Isto só poderia descambar no populismo apartidário e nem de esquerda nem de direita que o seu discurso sempre demonstrou (o candidato a presidente da república que esteve inscrito na Causa Real - mas nunca pagou quotas...; o mais preparado porque o que mais países visitou e é preciso ter visitado os países para conseguir mais exportações; enfim, os exemplo abundam). Mas também se enganou quando não o patrocinou porque a sua expressiva - mas não "única" (basta pensar em Pintassilgo 1986 ou Alegre 2006) - votação teria sido uma vingança como a que Soares gosta - pública. Isto de ter feito a Alegre o que ele lhe fez há cinco anos, mas só em privado, deixou-o certamente chateado. Se era para humilhar, era mesmo a sério. A sua entrevista ao DN de hoje só confirma esta minha tese.

- Francisco Lopes é um fóssil vivo, como os celacantos. Há muitos no PC, nesta altura. A palavra é sempre “mudança” e sempre contra a “política de direita”, mesmo que o PCTP / MRPP, por um acaso, fosse o governo neste país. A favor de quê? Da ditadura do proletariado. Eu não tenho nada contra o proletariado. Tenho até tudo a favor. Mas não sei porquê a palavra ditadura sempre me fez, digamos, espécie. Assim como os efectivos da espécie de celacanto sem guelras que se passeiam de bandeira vermelha pelas noites eleitorais. Os comunistas têm uma coisa magnífica: podem ter tido menos que o PCTP / MRPP numa qualquer eleição mas é sempre “uma vitória contra as políticas de direita”. Ao contrário do que disse um comentador, acho que se Francisco Lopes veio para as primárias do partido saber se funcionaria como líder, provou que sim. Funcionaria na perfeição. Será ele, espero, o antecessor de quem conseguirá colocar o PC onde deve – junto com o PCTP / MRPP. O Garcia Pereira do futuro chama-se Bernardino Soares.

- José Manuel Coelho foi uma constatação e uma surpresa. Constatamos todos que se Manuel João Vieira conseguisse finalmente o raio das 7 500 assinaturas que precisa – anda lá, homem, basta sentares-te no Chiado algumas tardes (eu assino!) – teria bem mais do que 5%. E tivemos a desagradável surpresa de ver o resultado completamente descabido que teve na Madeira. “Só” o dobro dos votos do PS. Será candidato contra Jardim nas próximas eleições regionais. E, seja porque Jardim tem outro ataque cardíaco porque não aguenta os ataques do homem, seja porque o povo o que quer é festa e um Coelho em vez do Jardim também dá para afagar, ganhará. Isto se o PS não se lembrar de o apoiar. Senão, Jardim mais uns anos. Mas ganhando, cumprirá o ditado: “atrás de mim virá quem bem de mim falará”. Porque o Manuel João Vieira em campanha é hilariante. Mas como governante – como ele bem sabe (por alguma coisa o seu primeiro acto seria demitir-se, costuma dizer) – seria um desastre.

- Defensor Moura: começou bem, acabou pessimamente. Tive pena. Foi um óptimo presidente da Câmara de Viana do Castelo e não merecia que a vaidade se sobrepusesse ao recato do lar. Começou como um outsider que queria marcar a agenda e, com a votação de entronização do bobo Coelho, acabou por ser o bobo da festa.

E agora, José? Agora “há uma pedra no meio do caminho”, como escreveu Drummond. E não, não se chama Aníbal. E não, não se chama Portugal. É uma pedra com oitocentos anos de história, sim, mas um nome colectivo, não comum: é um cardume, é uma matilha – depende dos dias e do estado de espírito. E é uma pedra definida por um peixe ou um lobo ou o que for – definida pelos portugueses. Enquanto não se alterarem mentalidades (por muito lato que este conceito seja, concedo), não há nada a fazer. A pedra que temos no meio do nosso caminho somos nós.



publicado por JRS às 20:29 | link do post | favorito

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