Sábado, 22 de Janeiro de 2011

Este post é dedicado ao Changuito e aos editores da Língua Morta.

Chegado de uma agradável visita à livraria do Changuito (1 - mesmo com alguns décibeis a mais, de minha inteira responsabilidade; 2 - é altura de começar a grafar o nome dele em condições), onde comprei o livro Exercícios para Endurecimento de Lágrimas de Maria Sousa (Língua Morta, 2010), visitei, como o faço de vez em quando, o blogue do Henrique Manuel Bento Fialho. E deparei-me com este post.

Se ao que lá vem escrito se somar a tiragem do livro da Maria Sousa (150 exemplares, também), noto uma estranha queda para a limitação da poesia. No caso do Henrique levada ao extremo do "foram feitos 150 exemplares únicos e irrepetíveis. Em nenhuma circunstância estes poemas voltarão a ser editados enquanto eu for vivo. Não estará [o livro] à venda nas livrarias."

Começo por concordar com o Henrique numa coisa: os poemas não voltarão a ser editados. Quando muito, reeditados. Mas isto é coisa de pormenor sem importância. Não sei se hei-de concordar com esta coisa do dar o poema só àqueles que eu quero mesmo dar.

Uma tiragem limitada tem um de dois objectivos: ou limitar os leitores, escolhendo-os - se possível - dedo a dedo; ou fazer do objecto em si uma raridade logo à nascença, com a ideia de [que]* mais tarde a raridade vire ainda mais rara. Neste último caso, por exemplo, está o livro Pequeno Formato, que o Eugénio de Andrade editou em 1997. Foi oferecido só a amigos, com a ideia muito eugeniana de fazer objectos que fossem valer pelo facto de existirem poucos (eugeniana e, convenhamos, cruzsantiana também). Mas, no mesmo ano, Eugénio colocou os poemas num livro da sua série de obras, o 4, juntamente com Ostinato Rigore, o que o fez disponível a todos os que o queriam ler. Não tinha, por isso, qualquer objectivo o autor de escolher os seus leitores.

O que a Língua Morta (de que admiro o trabalho, quero já dizer que é para não haver aqui mal entendidos) está a fazer (até porque os livros só estão disponíveis na Letra Livre e na Poesia Incompleta, disse-me um dos editores quando eu não fazia a mínima ideia que ia escrever este texto, quero ser bem claro nisto) ou, muito mais, mas mesmo muito mais, o que o Henrique quer fazer é escolher os leitores. Será boa a escolha de leitores? Ou melhor, necessária? Ou melhor, adequada?

Não sei. Este post não tenta responder a nada. Tenta só pensar um bocadinho nas coisas. Eu editei a Teoria dos Conjuntos numa tiragem de 117 exemplares para oferecer a quem quis. Só o coloquei à venda na Poesia Incompleta. Quis escolher os leitores. Mas levar ao limite essa limitação com as frases que o Henrique escreveu, parece-me completamente desadequado. Ele não quer que as pessoas leiam o que escreve? Esses poemas envergonham-no de tal maneira que só os quer dar a ler nesta edição? Sem falar na coisa do "enquanto eu for vivo". Aqui, lamento, mas já entramos um bocadinho na questão eugeniana: parte o Henrique da presunção que alguém o irá quererá reeditar posteriormente.

Uma reflexão, apenas. Talvez mande um email ao Henrique para comprar o livro. Gostava de ler os poemas. Mas corro o sério risco de ver isso ser usado um dia contra mim . Depois de uma agradável troca de emails, há uns anos, enviei-lhe por simpatia o Vou para Casa (uma das coisas boas de editarmos os nossos livros - podemos oferecer muitos). Depois li que eu o tinha enviado de moto próprio, como se quisesse saber a sua opinião. Não foi bem isso, ele sabe. Mas não tem mal nenhum escrevê-lo. A vida é feita destes, digamos, salutares equívocos.

Eu devo editar um livro de poemas este ano. Devido ao que aconteceu às Quasi, onde tinha os meus livros, gostava um dia de poder reeditar alguns dos poemas antigos. E, em ambos os casos, sempre com a ideia de procurar um leitor (reeditando até um ou outro da Teoria já citada). Mas um leitor que me encontre sem que o obrigue a provas de obstáculos, ir a um blogue, mandar um email, ir a uma livraria em particular. Procurar um leitor não é impedir outros leitores. É exactamente editar um livro e colocá-lo o mais disponível possível para que todos possam ler o que escrevemos. Ou será que a ideia de um escritor é ser lido só por aqueles que acha que o merecem? Não creio. Escrever para possiblitar ler. E sem preocupações absurdas com o lugar onde ficarão os versos, lugar esse que, se pensarem bem, não é nenhum. Quantos poetas do século XVII consegue citar o leitor deste post? Como diria o outro, my point, exactly. Ninguém tenha a presunção de querer, como Sá-Carneiro com duas décadas, que a nossa literatura talvez se entenda daqui a alguns séculos. Porque nessa altura, meus caros, não seremos literatura nenhuma. E nem falo de celebridades como Guerra Junqueiro ("o maior poeta da península", no seu tempo, agora pouco ou nada considerado e lido). Falo de gente célebre só em casa (mesmo que com uns décibeis a mais, concedo).

PS: Não espero outra coisa que um ensaio de cinquenta mil caracteres do Henrique sobre este post, claro. E que fique claro que este post utiliza a Língua Morta como um exemplo, não como exemplo a criticar.

 

* Henrique, que desilusão... Por causa da falta de um "que" (erros meus, má fortuna...) nem um considerando acerca do post em si. Eu sei, bastava ter dito o contrário - algo como tenho a certeza que o Henrique não responderá. Mas mais importante: quanto custa o livro e como o pago? Gostava muito que mo enviasse. Posso enviar um email a pedi-lo? Pelos vistos, não. Os meus olhos não merecem os seus poemas. Retirar-me-ei, triste e amargurado, para um monte alentejano onde me tornarei um eremita devido a tamanha privação, acredite.



publicado por JRS às 20:18 | link do post | favorito

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