Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

Movido por uma conversa com o meu professor de Zoofilogenia e Evolução, li A Criação de Edward O. Wilson, editado na Gradiva há pouco tempo. Na capa escreve-se "Um apelo para salvar a vida na Terra". Logo depois "Por favor, leia este livro". Ficaria melhor se, por baixo deste segundo apelo (neste caso, da Gradiva) se tivesse colocado o autor da frase, Michael Ruse, eminente darwinista e filósofo da ciência. Assim, é só uma maneira nova de dizer "Por favor, compre este livro".

Mas o livro. É de um naturalista dos quatro costados. De um homem que dedicou a sua vida às formigas como se as formigas representassem todas as espécies vivas. Que representam. Quero com isto dizer que é um livro de um apaixonado pela Natureza, assim em maiúscula. Por isso, por vezes, tem algumas frases que estão para a ciência como a Florbela Espanca para a poesia: é muito bonito e tal, mas não precisava de tanto ponto de exclamação. Quero com isto dizer que Wilson ama a maravilhosa diversidade que temos na Terra porque ama todos os animais da Terra (estou a ser injusto, ele cede no que respeita a três espécies de piolhos exclusivas da nossa espécie e ao mosquito portador do protozoário que nos causa a malária e lá diz que se devem guardar como o virus da varíola, mas que se poderiam extinguir). Quero com isto dizer que tem alguns excessos, portanto. Mas quero também dizer que há muito que não lia um livro tão desassombrado, apaixonado e - em tanta coisa - verdadeiro.

O meu professor tinha-me falado da sustentabilidade. Que a questão da preservação da biodiversidade se deve colocar na própria sustentabilidade da biosfera e nela da espécie humana. No fundo, eu também acabei por dizer isso aqui, mas dando mais destaque ao argumento humanista. O meu professor ensinou-me - mesmo tendo eu deixado a faculdade há dez anos - que a questão humanista, por ser dicotómica (humanismo / naturalismo) é estúpida. E, claro, está certo.

Entendo Wilson quando acaba por cair no argumento da preservação daquela espécie só porque é única. Ele está apaixonado pela vida natural, e defende-a até ao limite. Eu quando começo a falar da questão do ensaio de 84 de Gould na Natural History, da mudança do nome de Némesis e da extinção dos dinossauros fico na mesma, meio perdido na beleza que vejo onde outros ouvem tédio. Mas Gonçalo M. Tavares diz bem na LER deste mês: viva o tédio. O meu tédio pela preservação daquela espécie particular devido à sua beleza natural é o deslumbramento de tantos. E é isso que equilibra as coisas.

Mas da preservação da biodiversidade: agora que aprendi que a dicotomia é estúpida, aprendi que aquela espécie particular pode, como as asas da borboleta que batem no Jardim Botânico do Porto, fazer com que haja mais vento no deserto de Mojave. A sua preservação permite que a biosfera esteja equilibrada e que por isso permita que também nós estejamos nela equilibrados. Wilson sabe do que fala, acreditem. Por favor, leiam o livro dele.  



publicado por JRS às 22:58 | link do post | favorito

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