Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

Este conto, de entre tudo o que escrevi, está entre os textos de que mais gosto. Foi umas das minhas primeiras incursões na prosa. Saiu na tristemente já desaparecida Magazine Artes e depois deu título ao livro de contos que editei na Sextante. Julgo fazer todo o sentido, hoje, colocá-lo aqui. O final faz-me sempre lembrar o meu pai a entrar na cozinha dos meus avós em Ribeirão.

 

Terra

 

Há uma porta que encerra a luz no exterior. E eu entro pela porta entrando na escuridão e abrindo muito os olhos com toda a vontade que tenho de ver. A escuridão tapa-me os olhos e eu aguardo que, um dia, um milagre me deixe sentir no fundo do olhar mais do que estas sombras difusas, mais do que este negrume imenso. E eu entro e entrego a minha alma à luz. Entro com o corpo, só. A alma vive de luz e eu, de qualquer maneira, não necessito dela para onde sigo. Ouço o José, que me acompanha os passos, depois de deixar a alma dele lá fora. Ouço-o dizendo

– Despacha-te, homem.

sempre que o meu andar não obedece às ordens que lhe dou, sempre que o meu andar espera mais um pouco que a alma lhe dê o seu último ânimo.

O José entra atrás de mim, diz

– Despacha-te, homem.

porque o seu vagar ainda tem a luz que, timidamente, consegue entrar no elevador da mina. É uma luz ténue mas que ainda o abraça. Já eu sou muito mais a escuridão que nos irá envolver.

Descemos ao túnel e levamos a vida connosco. Levamos o ar e o sol, a minha mulher, os meus filhos, a mulher dele, o filho às vezes e as árvores. Levamos no retrato que ambos beijamos duas vezes e na cruz em que nos benzemos sempre que entramos. Levamos Deus connosco porque a terra é funda, o céu fica longe. Pensamos às vezes como seria se um de nós morresse enfiado naquele buraco onde passamos os dias, os nossos dias que são sempre noite. Penso sempre: como seria?, estaria Deus disposto a descer àquele inferno para me ir buscar? Um dia perguntei ao José

– Homem, achas que se eu morresse na mina ia para o céu?

estávamos já na mina, naquele carreiro muito escuro que é o túnel, e ele não disse nada. Eu perguntei outra vez, pensando que ele não tinha ouvido por causa do som que a sua picareta fazia, faz sempre, arrastando-se naquela terra que, mesmo já cá no fundo, ainda tenta ver alguma luz

– Homem, achas que se eu morresse na mina ia para o céu?

e ele voltou a não responder. O José não respondeu porque tem um filho que saiu de casa sem lhe pedir a bênção. Ainda hoje, já meses depois dessa pergunta, quando entro na mina com a vida que levo comigo e o José sem o filho que se foi embora, eu penso que ele não respondeu por causa do rapaz.

O filho do José era da idade do meu mais velho. Brincavam juntos em crianças, atirando a terra ao ar e esperando que ela, pelo brilho que os raios de sol lhe dava, caísse em cores e poeira de ouro. Chamavam-lhe ambos as pedras que os nossos pais vão buscar para nós comermos, o raio dos moços. Chamavam-lhe a infância naqueles saltos e naqueles sorrisos, o pó e a terra como um sustento.

Caminharam ambos para a escola, conheceram as primeiras cachopas, enamoraram-se, zangaram-se, fizeram as pazes e pediram para ser como nós. Eu e o José sorríamos pelo exemplo que lhes dávamos e chorávamos muito por saber que o destino dos rapazes havia de ser mesmo esse. Falávamos, como falamos sempre, enquanto o elevador nos leva para aquele inferno, ou à entrada do túnel, onde a terra ainda tenta ver alguma luz, da alegria que era os moços serem como nós e da tristeza de um dia os sabermos falarem na escuridão que era tanto a nossa. Mas era o destino, não havia como. E um destino é uma coisa de Deus, já dizia o senhor padre na missa de domingo. Haviam de ser como nós, de ter mulheres como nós e filhos como nós. De ser felizes na escuridão mesmo que o céu ficasse um pouco mais longe.

Mas um dia o José chegou com o fogo nas ventas a minha casa. Expelia o diabo pelo corpo, tão fora de si estava. Dizia-me a sofrer que o filho se tinha ido embora e que o meu teria culpa nisso. Eu chamei o meu moço e perguntei-lhe uma vez

– Moço, que sabes tu disto?

e ele nada. Como se a picareta do José estivesse a arrastar pelo chão do túnel, parecia não ouvir. Eu perguntei outra vez

– Moço, que sabes tu disto?

já depois de lhe fazer lembrar que era seu pai, pegando no cinto com força e lembrando-lhe muitas vezes, tantas quantas o dito cinto lhe tocou no corpo. Ele chorava, e eu voltava a perguntar com a voz e com as mãos. E ele chorava, e eu perguntava. E ele dizia

– Pai, o filho do senhor José, não sei dele.

como se lhe não soubesse o nome, como se fosse o José quem me fazia perguntar ao meu filho com a voz e com as mãos. Disse muitas vezes

– Pai, o filho do senhor José, não sei dele.

tantas quantas o cinto lhe tocou no corpo. E foi quando já o seu corpo parecia não aguentar mais a minha voz que me falou

– Pai, ele quis fugir, disse que a terra era feita de pó, e não de ouro, que o ouro que via quando atirava a terra ao ar e o sol lhe dava era um engano e que não podia viver a vida dele a procurar um engano metido dentro da terra.

e o filho do José tinha mesmo fugido. E eu fui dizê-lo ao José, não sem antes ter sentido mais uma vez a minha voz e o meu cinto no corpo do meu moço. É assim que se aprende a não guardar a verdade, já dizia o meu pai.

Disse ao José o que ele já sabia. O meu moço, esse, só sabia da terra e do sol e do ouro mas nada do verdadeiro porquê da fuga ou de para onde tinha sido. O José continuava com o diabo a sair-lhe do corpo, com ele fora de si como se de um diabo só se tratasse. Estava capaz de maltratar Deus, se ele lhe aparecesse à frente. Felizmente não apareceu – eu quero ir para o céu com o meu amigo José, e se ele maltratasse Deus ainda ia para o inferno com ele e nós já estamos há muito tempo juntos a trabalhar na mina.

O José saiu de casa com a resignação que lhe consegui dar. Disse-lhe para não se preocupar, que era coisa de criança, que o filho havia de voltar e que depois lhe poderia mostrar com o seu cinto como se tinha sentido na sua falta. Tendo-o acalmado um pouco, fui mostrar ao meu que isso não se faz, precavendo qualquer falta em adiantado.

Os meses passaram e os anos foram muitos meses. Até que um dia o José recebeu pelo encarregado da mina uma carta que tinha um barco e um mar. Vinha destinada a ele e assinada pelo seu filho. A carta dizia assim, como se fosse o filho do José a dizer ao José

– Pai, estou mesmo feliz. Tenho uma terra como a tua, só que é feita de água. Descobri que o ouro que procuras também está na água, e que lá há luz e não há escuridão. Que posso ser um bocadinho tu sempre que entro na água e levo comigo uma picareta, uma lâmpada – como tu, porque não há escuridão mas vê-se mal – e mais coisas, que lá em baixo não há ar. Na mina há ar, pai. Mas não há peixes, pai, peixes que riem para ti quando os caças, coisas velhas que apanhas do chão do mar com uma picareta e que são ouro para quem, como o encarregado da mina a ti, me dá o sustento. Pai, eu estou mesmo feliz, e espero que estejas feliz por mim.

mas não estava. O filho estava feliz, mas longe. E podia ter uma picareta mas não tinha a escuridão para aprender a usá-la só com a lâmpada que da cabeça nos cai. E podia ter o ouro dele mas o ouro dele não era ouro, eram coisas velhas que apanhava do chão e que outros chamavam de ouro. E podia ter terra, mas era água.

O José entrou na mina, desceu o elevador, arrastou-se no túnel, magoado. E, enquanto procurava com a sua picareta o que lhe encomendava o encarregado da mina, enquanto procurava em silêncio comigo ao seu lado procurando o que a mim tinham encomendado, o José continuava triste. Na mina, lá no fundo, quando o inferno é muito quente como só o inferno pode ser e o céu é muito longe, nós trabalhamos sempre com o silêncio junto a nós. Procuramos muito que ele fique sempre connosco, fechando as bocas, pensando nas almas que deixámos lá fora. Mas o silêncio foge em cada golpe que a nossa picareta dá na terra dura que há no fundo da mina e que é já rocha. Mas nós procuramos ainda mais, ficando cada vez mais calados, pensando na alma que ficou lá fora e naquilo que trouxemos para dentro, seja o ar e o sol, a minha mulher, os meus filhos, a mulher dele, o filho – às vezes, só às vezes – e as árvores. Ou no retrato que ambos beijamos duas vezes. Ou na cruz em que nos benzemos.

No dia seguinte à carta, a picareta do José não roçou o chão da poeira do túnel. Ele levantou-a e disse-me que não tinha filho, que aquilo que tinha nascido da mulher dele não tinha nunca existido. Eu perguntei-lhe

– Porquê, homem? Porque matas assim o teu filho? Ele afinal está feliz, não queres ver o teu filho feliz, homem?

e estava, e estava feliz, ou pelo menos assim o fazia notar na carta que enviou e que o José leu como se fosse o filho a falar e a dizer

– Pai, estou mesmo feliz.

dizia lá. O José não respondeu, talvez porque a picareta lhe tenha caído para o chão e começado a roçar a terra e por isso tenha reparado que eu não ouviria a resposta ou então porque a atirou ele. Fiz-lhe esta pergunta durante muitos dias, tantos que até foram dias que foram semanas. E só quando ele teve força para segurar outra vez a picareta é que me disse

– Porque fugiu sem a bênção que lhe queria dar e está à procura de ouro onde não há. Ninguém pode ser feliz procurando aquilo que não existe. 

e não pode, nisso tinha o José razão. Eu não respondi, a força do José aguentou pouco a picareta e ela voltou a roçar o chão do túnel.

Meses depois o José recebeu outra carta. O encarregado da mina, antes de entrarmos, voltou a chamar o José

– José.

e ele voltou a ter de ir buscar a carta. A desconfiança com que pegara na primeira deu lugar à amargura com que se afastou de mim para ir buscar a segunda. Pegou nela sem um sorriso – não que o José seja um homem de sorrisos, mas a força com que o não tinha não dava azo a qualquer dúvida – e abriu-a. A carta vinha também com um barco e um mar nela e endereçada ao José, mas faltava-lhe a assinatura do filho. O José ficou parado, a entender como duas cartas com o mesmo barco e o mesmo mar podiam vir para ele e só uma trazer o nome do filho. Leu-a já a pensar que era outra pessoa a ler para ele, a dizer

– Senhor José, o seu filho que se dizia feliz morreu. Temos muita pena em dizê-lo mas a verdade é esta e nós não temos como mentir-lhe. Também não temos o corpo que era o dele para lhe dar e enterrar onde quiser porque desapareceu na água. Um dia desceu mais fundo do que devia, com a picareta às costas, uma lâmpada – como o senhor José, porque não há escuridão na água mas vê-se mal – e mais coisas, que lá em baixo não há ar. Disse-nos que queria encontrar todo o ouro que conseguisse, as coisas todas que nós lhe pedíramos porque esse era o seu ofício e tinha de ser bom nele. Correu mal a viagem ao seu filho, senhor José, que não voltou do encontro, se o teve. Desculpe lá, mas a vida é assim, só com a morte existe e o seu filho viveu porque morreu. Pelo menos feliz, dizia ele. Sentidos pêsames.

e assinavam algumas pessoas por baixo do nome delas: encarregado, encarregado do encarregado, até o encarregado do encarregado do encarregado assinava. E nós nem sabíamos que havia minas que podiam ter um. Também não conhecíamos as minas de água onde o filho do José era feliz, isso era certo.

E o José entristeceu outra vez. O filho que ele não tinha acabava de morrer. Ou pelo menos assim o dizia o papel. Podia ter morrido há mais tempo, que escrever uma carta, dar a assinar a tantos encarregados e colocá-la nas mãos de um pai demora o seu tempo, mas o José só soube quando a leu e só aí viu o fim do filho na mina de água que era a sua.

O José arrastou a picareta pelo chão meses, tantos meses que foram anos. O meu moço mais velho começou finalmente a acompanhar-nos e o José a chorar em silêncio sempre que o via sozinho, sem a companhia do filho que se tinha ido embora sem a bênção de um pai. Fizemos os três o caminho muitas vezes, descendo o elevador, pelo túnel até ao inferno que é esta mina, desde o sol e da alma que o meu filho também aprendeu a deixar à entrada. Fizemos o caminho e continuámos à procura das coisas que nos encomendavam.

Um dia o José bateu com muita força na terra, tão dura que já era rocha, e abriu-lhe um sulco. Do outro lado do sulco o José viu uma câmara enorme onde cabiam muitos de nós e nela um pequeno rio que corria sobre a terra, límpido, tão límpido que, pensei eu, se alguém ali quisesse nadar não precisava de levar a lâmpada que nos cai da cabeça porque não existia escuridão dentro dele. Ficámos muito admirados, eu e o meu filho, pela descoberta que o José tinha feito. Não era o ouro que nos encomendavam mas era um rio de água limpa a correr no meio de uma câmara enorme. E isso nunca ninguém tinha visto. É certo que tinham falado da água que podia correr em câmaras grandes no meio da terra funda e nós sabíamos que existia. Mas a surpresa não deixou de ser tão grande como a câmara onde cabiam muitos de nós. O rio vinha de longe, aos nossos pés, e passava por nós desde uma fenda também grande na terra até outra grande como a primeira onde desaparecia. Eram fendas grandes também, mas onde só aquele rio acabava cabendo.  

O rio passou a ser um sítio onde os outros mineiros vinham lavar um pouco as mãos da terra que não era tão dura como a rocha e que por isso os sujava. A picareta bate com força na terra que já é rocha e faz dela outra mais mole, que nos entra dentro dos olhos e dos dedos e nos faz sentir com os olhos e com os dedos que o mundo é todo feito de terra. Com a descoberta do José, eu, o meu filho e os outros mineiros, pudemos ver no meio da terra alguma água que nos lavava, por vezes o próprio espírito que tinha ficado à entrada, ao sol, entregue à luz.

E o José batia com a picareta nas imediações do rio. Ele não sorria muito, o José, mas, notava eu, por vezes havia como que um esgar que lhe batia no rosto, da mesma forma que a nossa picareta bate onde queremos que bata. Perguntei-lhe, num outro dia e quando lhe vi esse esgar de um sorriso à entrada do túnel

– Estás mais feliz, homem. Que se passa? É o rio que descobriste que te lava a cabeça das tristezas da vida?      

e o José, mesmo com a picareta dele a roçar o chão e todo o silêncio tão longe porque a picareta não a levantou ele, respondeu baixinho

– Vi o meu filho, homem. Um dia olhei o rio e ele veio à tona da água e olhou a sorrir para mim. Depois as horas passaram muito e foram outro dia e eu vi-o outra vez a olhar para mim e a sorrir. O meu filho descobriu a terra e há-de vir ter comigo pelo meio dela. O meu filho entrou pela terra dentro e agora é parte dela. O meu filho um dia há-de dizer-me o que deve.

e eu não pude deixar de sorrir também. Disse-lhe, com alguma tristeza

– José, homem, bem sabes que a morte não traz ninguém de volta, bem sabes que as pessoas quando morrem são sempre levadas para Nosso Senhor, já diz o senhor padre, e não voltam mais.

mas ele já não ouviu. A picareta começava novamente a roçar como sempre fizera o chão e o José a viver na ilusão de um dia ver o filho a dizer-lhe o que devia.

Passou-se mais tempo, dias que foram semanas, semanas que foram meses. Eu, perguntei-lhe se quando morresse havia de ir para o céu e o José não me respondeu. Desde que disse que havia de esperar o filho dizer-lhe fosse o que fosse que nunca lhe há-de dizer, que me não respondeu a nada que lhe perguntasse. O silêncio era grande, mesmo com o som da picareta arrastando pela poeira da terra que ainda vê alguma luz.

Até que um dia o José parou a picareta na rocha depois de uma pancada ainda mais forte do que aquela com que descobriu o rio. Quando ouvi o silêncio que a falta da picareta do José fez, a bater na rocha ao ritmo que nos encomendavam, voltei-me para ele, parei o meu filho e vi-o a sorrir, feliz.

O José era finalmente feliz. Porque tinha visto água a jorrar num fio, como nunca nenhum de nós tinha visto, da terra que de tão dura já era rocha. O José tinha descoberto o rio, mas o rio vinha de longe e era numa câmara grande e vinha de uma fenda grande e ia-se noutra fenda também grande. Aquele fio de água que jorrava da rocha não tinha de onde vir e existia. O José voltou-se a rir muito e disse

– Vê, homem, podes morrer na mina, que é no meio da terra que está o nosso céu.

porque no meio da terra, descendo pela terra que de tão dura já era rocha, estava desenhado um rosto. O rosto do filho do José que, como ele tinha dito e eu não acreditara, era feito de terra e pelo meio da terra tinha chegado ao José. E que repetia, alto, tão alto que até nossas almas entregues à luz à entrada da mina ouviam

– A sua bênção, meu pai.  



publicado por JRS às 20:19 | link do post | favorito

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