Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Os mais desatentos - ou atentos - pensarão que dado o título "Maryllin e Mark" aqui se vá falar de Monroe com um Kennedy qualquer, que em vez de Jackim era Marco. Nada mais falso: falemos antes de Maryllin Manson e Mark Kozelek. Que haverá de tão igual ao ponto de ser idêntico entre as carreiras destas duas personalidades, uma príncipe do rock industrial e outra rei do sad core? Numa palavra: quase tudo.

Kozelek era os Red House Painters. Iniciados com uma maquete de seis temas que deu um álbum na 4AD em 1992, com o segundo álbum homónio viraram fenómeno de culto. Depois de um sucedâneo também homónimo (com as sobras do primeiro), mas de um Ocean Beach de 95 muito bom e de um Songs For a Blue Guitar de 96 (já fora da 4AD) excelente, veio a decadência. Old Ramon (de 2001, mas que eu sei estar pronto desde 98) era já uma coisa a caminhar para o mau e só um primeiro álbum a solo de Mark permitia alguma esperança. Enfim, ela não veio. Três álbuns com o novo nome de Sun Kil Moon (porque os direitos de Red House Painters ficaram na SubPop), incontáveis gravações ao vivo e em nome próprio, Kozelek tornou-se uma caricatura dele próprio. Perdeu os dotes para compor? Nada disso. Então que aconteceu? Simples: mudou o registo vocal. Assim, sem mais. Onde antes havia uma voz magnífica, passou a existir um rapaz a, termo técnico, esganiçar. Ao ponto de, em alguma músicas dos Sun Kil Moon a coisa soar mesmo, digamos, desafinada. Boas canções, sempre, mas muito mal cantadas, sempre.

Manson, esse, é o príncipe do rock industrial. Nome de banda e de front man da banda, tem esse paralelismo com Kozelek à partida: ele é quem sabe, o resto é gente para encher o quadro. Começou em 1994 com Portrait of an American Family, um dos primeiros grupos que Trent Reznor (o rei), dos Nine Inch Nails, contratou na sua Nothing. (Quem quiser pode ver num dos videos de Broken, EP dos Nine Inch Nails de 92, Brian Warner - o nome próprio do senhor Manson - sem maquilhagem a tocar guitarra.) E além de contratar, produziu. Ele gritava, mas não só: dizia. Era assim como um Pedro Abrunhosa, que sabe bem que não sabe cantar então murmura. Manson gritava, sim, mas também usava a voz grave que tem para longas frases quase guturais, cheias, fortes. E foi com esse registo - e mais uma vez Reznor na produção, embora também na composição de alguns temas e a tocar alguns instrumentos - que saiu Antichrist Superstar em 1996. Numa palavra: um disco perfeito de rock de fusão, industrial, metal, duro como uma carcaça de pão recessa de quatro dias. Mas eis que, a partir daí - e já sem Reznor a ajudar (as comadres zangaram-se e só fizeram as pazes em 99 no video Starfuckers Inc. dos Nine Inch Nails) - o rapaz se esqueceu que não sabe cantar. E então, é só gritos. Poucas as músicas que em Mechanical Animals (1998), nenhumas em Holy Wood (2000), Eat Me, Drink Me (2007) e The High End of Low (2009) onde não há mais do que gritos e gritos (pelo meio houve The Golden Age of Grotesque de 2003 em que Tim Sköld dos históricos do industrial KMFDM deu a ajuda necessária para ele, quer dizer, cantar sem gritar tanto).

Este post, por isso, é um pedido. Eu já tive o email do Kozelek (costumo dizer que houve gente que o conheceu e foi amigo dele; eu não, eu zanguei-me com ele, o que é muito mais chique). Mas do Manson não tenho sequer uma morada que não seja um apartado ou um email que não seja geral em inglês. Alguma alma caridosa diz a estes dois senhores que eles continuam a saber compor, que são gajos inteligentes, etc e tal, mas que basta continuarem a cantar, num caso, e falar no outro, como sabiam há aí uns dez anos? Eu, que neste momento ouço MM e que vou adormecer a ouvir a Ruth Marie do MK, dou um exemplar por ele assinado (e com muita amizade) do Noites de Atropelo do Kozelek a quem provar que o conseguiu (com o álbum respectivo, claro, editado para eu poder ouvir para adormecer, num caso, ou acordar, no outro). Ora, muitos obrigados, sim?



publicado por JRS às 22:28 | link do post | favorito

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